Secreção vulvar em cadelas: causas e passo a passo do diagnóstico
Resumo: secreção vulvar não é sinônimo de piometra. Ela pode ser normal (proestro, estro e pós-parto) ou indicar aborto, metrite, vaginite, estenose vaginal, tumores como o TVT, cistite, piometra de coto ou síndrome do ovário remanescente. O raciocínio começa pela situação reprodutiva da cadela (gestante, pós-parto, inteira ou castrada), segue pelo exame físico e pela cor da secreção e se confirma com vaginoscopia, citologia, ultrassom e urinálise.
- Primeira pergunta
- Castrada, inteira, gestante ou no pós-parto?
- Normal
- Proestro, estro e pós-parto (até cerca de 3 semanas)
- Inteira em diestro
- Piometra é a principal causa
- Castrada
- Hemorragia de coto, piometra de coto, vaginite, tumores
- Urgência
- Secreção verde no parto antes do 1º filhote
- Exames
- Vaginoscopia, citologia, ultrassom, urinálise
Quando a secreção vulvar é normal
- Proestro: secreção sanguinolenta a serossanguinolenta, mais abundante. No início pode haver só edema de vulva com pouca secreção clara.
- Estro: a secreção costuma ficar mais clara e aguada.
- Pós-parto: os lóquios, de cor vermelho-acastanhada, são esperados por até cerca de 3 semanas. Depois disso, pense em involução uterina tardia ou outra causa.
Cuidado: não conclua que é cio só porque a cadela é inteira e a secreção é sanguinolenta. Confirme os outros sinais: edema de vulva, receptividade ao toque (ela levanta a cauda) e atração de machos. Se não houver esse quadro, investigue outras causas, como o TVT.
Causas por situação reprodutiva
Cadela gestante
- Aborto, com secreção sanguinolenta ou amarronzada.
- Maceração fetal.
- Hemorragia relacionada à gestação.
- Insuficiência lútea: o corpo lúteo não produz progesterona suficiente, o que pode causar secreção sanguinolenta e evoluir para aborto.
Pós-parto
- Lóquios normais (até cerca de 3 semanas).
- Metrite pós-parto (infecção uterina).
- Hemorragia pós-parto.
- Subinvolução dos sítios placentários, que pode prolongar a secreção e favorecer a metrite.
- Retenção de placenta, menos comum na cadela do que em grandes animais.
Cadela inteira e não gestante
- Piometra: é a principal causa no diestro, a fase lútea que vem depois do estro. A forma aberta drena secreção; a fechada pode não ter secreção nenhuma.
- Vaginite secundária e estenose vaginal.
- Vaginite juvenil, em cadelas jovens antes do primeiro cio.
- Tumores vaginais, com destaque para o TVT (tumor venéreo transmissível), e tumores uterinos.
- Lesão pós-coito.
- Corpo estranho vaginal (raro).
- Urovagina: retenção de urina no canal vaginal por alteração anatômica, que causa vaginite.
Cadela castrada
Nas primeiras semanas após a cirurgia (até cerca de 4 semanas):
- Hemorragia de coto, mais comum nas primeiras 72 horas.
- Coagulopatia sistêmica, que dificilmente sangra só pela vulva: procure sangramento em outros locais.
- Corpo estranho esquecido na cirurgia.
Meses após a castração:
- Vaginite secundária, muitas vezes por estenose vaginal, que pode piorar depois da castração.
- Piometra de coto (infecção do coto uterino).
- Neoplasias, incluindo o TVT: uma cadela que teve contato com macho antes da castração pode desenvolver o tumor depois.
- Síndrome do ovário remanescente: tecido ovariano deixado na cirurgia, ou ovário ectópico, que pode causar sinais de proestro mesmo em cadela castrada.
Em qualquer cadela: cistite e uretrite
Infecções urinárias graves podem contaminar o canal vaginal e causar secreção, geralmente purulenta.
Exame físico: não pule etapas
Antes de pedir exames, faça a anamnese e o exame físico completos. É deles que saem os diagnósticos diferenciais que os exames vão confirmar ou descartar. Pular direto para o ultrassom é um erro comum.
- Palpação abdominal: abdômen distendido pode indicar gestação avançada, fetos retidos ou piometra volumosa.
- Sinais sistêmicos: febre, apatia e falta de apetite tornam a piometra muito mais provável.
- Vulva com edema e avermelhada: proestro, estro ou início do parto. Com sinais de inflamação, pense em vaginite juvenil (cadela jovem), piometra aberta e cistite com uretrite.
- Vulva sem edema: pense em estenose vaginal e em tumores ou pólipos vaginais.
O que a cor da secreção sugere
A cor não fecha o diagnóstico, mas ajuda a ordenar os diferenciais:
| Aspecto | Principais possibilidades |
|---|---|
| Sanguinolenta (sangue vivo) | Proestro, síndrome do ovário remanescente, piometra, lesão pós-coito, tumor de células da granulosa, hemorragia de coto |
| Serossanguinolenta, mais aguada | Estro, piometra |
| Vermelho-acastanhada | Lóquios, metrite, piometra, aborto, proestro prolongado |
| Branco-acinzentada | Diestro e pseudogestação, gestação, piometra de coto |
| Mucopurulenta (amarelo-esverdeada) | Vaginite juvenil, piometra, piometra de coto, vaginite por estenose em adultas e idosas |
| Verde | Descolamento de placenta no parto; no pós-parto, pode indicar retenção de placenta |
Secreção verde no parto: se ela aparece antes do nascimento do primeiro filhote, ou quando o intervalo entre os filhotes fica longo, pode indicar distocia ou inércia uterina. Avalie imediatamente.
Passo a passo do diagnóstico
- Defina a situação: castrada ou inteira? Gestante ou no pós-parto? Teve contato com macho?
- Observe a secreção: cor, volume e há quanto tempo.
- Faça o exame físico geral e o específico da vulva, do vestíbulo e da vagina.
- Vaginoscopia com espéculo: inspecione o interior da vagina. A maioria das cadelas precisa de sedação leve. Ter experiência com o normal ajuda a perceber uma estenose.
- Citologia vaginal ou da secreção: é o primeiro exame quando a secreção é sanguinolenta em cadela inteira (confirma a fase do ciclo) ou quando você encontra uma massa, como um TVT.
- Ultrassonografia abdominal: é essencial quando a secreção é purulenta, para investigar piometra e piometra de coto.
- Urinálise e urocultura: para descartar cistite bacteriana como causa.
Diagnósticos mais prováveis
- Na castrada: vaginite secundária, estenose vaginal, piometra de coto e neoplasias, sem descartar o TVT.
- Na inteira: piometra, metrite, tumores vaginais como o TVT, outros tumores uterinos ou vaginais, pólipos e corpo estranho.
Perguntas frequentes
Secreção vulvar em cadela é sempre piometra?
Não. A piometra é a causa mais importante na cadela inteira em diestro, mas a secreção vulvar também pode ser fisiológica (proestro, estro, pós-parto) ou vir de aborto, metrite, vaginite, estenose vaginal, TVT e outros tumores, corpo estranho, cistite, piometra de coto e síndrome do ovário remanescente.
Cadela castrada pode ter secreção vulvar?
Pode. Logo após a cirurgia, a principal causa é hemorragia do coto, mais comum nas primeiras 72 horas. Meses depois, as causas incluem vaginite secundária, estenose vaginal, piometra de coto, neoplasias como o TVT e a síndrome do ovário remanescente.
O que significa secreção verde durante o parto?
Secreção esverdeada indica descolamento de placenta. Se aparece antes do nascimento do primeiro filhote ou quando o intervalo entre filhotes se prolonga, pode indicar distocia e exige avaliação imediata.
Quais exames pedir para uma cadela com secreção vulvar?
Depois da anamnese e do exame físico completo, os principais exames são a vaginoscopia, a citologia vaginal ou da secreção, a ultrassonografia abdominal para investigar piometra ou piometra de coto, e a urinálise com urocultura para descartar cistite.
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