Anemia em cães e gatos: como classificar e investigar a causa
Resumo: anemia não é diagnóstico, é uma síndrome com muitas causas. O passo mais importante é classificá-la pela resposta da medula óssea, usando a contagem de reticulócitos: anemias regenerativas apontam para hemólise ou hemorragia; arregenerativas, para um problema de produção. A causa mais comum na rotina é a anemia da inflamação ou da doença crônica, em que suplementar ferro não ajuda e pode fazer mal.
- Definição
- Queda de hematócrito, hemácias e hemoglobina
- Mais comum
- Anemia da inflamação ou da doença crônica
- Exame-chave
- Contagem de reticulócitos
- Regenerativa
- Hemólise ou hemorragia
- Arregenerativa
- Problema na produção medular
- Erro comum
- Prescrever ferro sem indicação
Anemia é síndrome, não diagnóstico
Anemia é a redução dos índices eritrocitários: hematócrito, contagem de hemácias e hemoglobina. Na maioria dos pacientes os três caem juntos, mas em animais desidratados a queda pode não ser proporcional. Escrever "anemia" como diagnóstico é um erro: ela é a manifestação de várias doenças, e o que define a conduta é descobrir a causa.
Dois erros frequentes na rotina:
- Tratar hemoparasitoses de forma empírica, sem diagnóstico.
- Prescrever ferro para qualquer anemia, sem indicação.
A fisiologia que você precisa lembrar
A eritropoiese acontece na medula óssea. As hemácias vivem cerca de 110 a 120 dias no cão e cerca de 70 dias no gato; se a medula não repõe as que morrem, o número cai e surge a anemia.
Na maturação, o penúltimo estágio é o reticulócito: uma hemácia quase madura, sem núcleo, maior e ainda com restos de organelas. Quando a medula aumenta a produção, mais reticulócitos chegam ao sangue. Contá-los e comparar com o grau de anemia mostra se a medula está respondendo.
Regenerativa, semirregenerativa ou arregenerativa
A classificação pela resposta medular é a que direciona o diagnóstico:
| Tipo | Medula | Principais causas |
|---|---|---|
| Regenerativa | Funcionando e respondendo | Hemólise e hemorragia (externa ou interna, como hemotórax e hemoabdômen) |
| Semirregenerativa | Resposta presente, mas insuficiente para o grau de anemia | Quadros mistos, início de resposta, deficiência de ferro por perda crônica |
| Arregenerativa | Sem resposta adequada | Inflamação e doença crônica, doença renal crônica, doenças medulares, FeLV no gato |
Na hemólise e na hemorragia, o problema não está na "fábrica": a medula funciona, e as hemácias estão sendo destruídas ou perdidas. Já na arregenerativa, a investigação se volta para o que está impedindo a produção.
Por que os índices eritrocitários não bastam
Na teoria, a anemia regenerativa é macrocítica e hipocrômica: os reticulócitos são maiores (VCM alto) e têm menos hemoglobina (CHCM baixo). Na prática, isso acontece em uma minoria dos casos. Em cães, estudos mostram que só perto de 1 em cada 10 anemias regenerativas tem esse padrão. Classificar só pelo VCM e pelo CHCM leva ao erro na maioria das vezes, e no gato isso é ainda mais marcante.
- Anemias regenerativas podem ser normocíticas normocrômicas ou macrocíticas hipocrômicas.
- Semirregenerativas podem ser normocíticas ou microcíticas hipocrômicas.
- Arregenerativas costumam ser normocíticas normocrômicas, mas podem ser microcíticas.
Os índices ajudam, mas não definem. Por isso, peça a contagem de reticulócitos, de preferência a contagem absoluta ou a porcentagem corrigida pelo hematócrito do paciente.
Referências práticas (confira os valores do seu laboratório): no cão, contagem absoluta acima de cerca de 60.000 a 80.000 reticulócitos/µL indica resposta regenerativa; no gato, acima de cerca de 50.000 reticulócitos agregados/µL. A porcentagem corrigida é o percentual de reticulócitos multiplicado pelo hematócrito do paciente e dividido pelo hematócrito normal da espécie (cerca de 45% no cão e 37% no gato); acima de 1% no cão sugere regeneração.
Anemia da inflamação: a mais comum
A anemia da inflamação e a anemia da doença crônica têm mecanismos muito parecidos e costumam ser tratadas juntas. É a causa mais frequente de anemia em cães e gatos. No gato, a FeLV também é uma causa importante, e muitas vezes atua pelo mesmo mecanismo inflamatório.
O mecanismo
- A inflamação ativa monócitos, que liberam citocinas, principalmente a interleucina 6.
- A interleucina 6 estimula o fígado a produzir hepcidina.
- A hepcidina reduz a absorção intestinal de ferro e bloqueia a ferroportina, a proteína que exporta o ferro de dentro das células.
- O ferro fica preso dentro das células. O ferro sérico cai e chega pouco ferro à medula, que produz menos hemácias, às vezes menores.
O resultado parece uma anemia ferropriva, mas a falta de ferro é relativa: o corpo tem ferro, só que ele está sequestrado.
Por que não dar ferro nesses casos
Com a hepcidina ativa, o ferro dado por via oral ou injetável também fica retido nas células. A anemia não melhora, e o excesso de ferro, que é um agente oxidante, pode causar dano celular. A conduta certa é tratar a doença inflamatória de base. O ferro tem indicação na deficiência verdadeira, típica da perda crônica de sangue, como sangramentos gastrointestinais e parasitismo intenso.
Checklist do paciente anêmico
- Confirme a anemia pelos três índices e considere o estado de hidratação.
- Peça a contagem de reticulócitos e classifique a anemia.
- Avalie o esfregaço sanguíneo: morfologia das hemácias, policromasia, esferócitos e hemoparasitas.
- Se for regenerativa, investigue hemólise e hemorragia.
- Se for arregenerativa, procure inflamação, doença crônica, doença renal crônica, retrovírus no gato e doenças medulares.
- Só prescreva ferro quando houver deficiência verdadeira.
Perguntas frequentes
Qual a causa mais comum de anemia em cães e gatos?
A anemia da inflamação ou da doença crônica é a causa mais comum de anemia na clínica de cães e gatos. Nos gatos, a FeLV também é uma causa importante.
Todo cão anêmico precisa de ferro?
Não. Na anemia da inflamação, o ferro sérico pode estar baixo, mas o ferro do corpo não falta: ele fica retido dentro das células pela ação da hepcidina. Suplementar ferro nesse caso não corrige a anemia e o excesso pode causar dano oxidativo. O ferro é indicado na deficiência verdadeira, típica da perda crônica de sangue.
Anemia macrocítica hipocrômica é sempre regenerativa?
Quando aparece, sugere regeneração, mas a maioria das anemias regenerativas não tem esse padrão. Em cães, apenas uma pequena parte delas, perto de 1 em cada 10, é macrocítica e hipocrômica. Por isso a classificação deve ser feita pela contagem de reticulócitos, e não só pelos índices eritrocitários.
Quais as causas de anemia regenerativa?
As duas grandes causas são hemólise (destruição acelerada das hemácias) e hemorragia (perda de sangue, externa ou interna). Nesses casos, a medula óssea está funcionando e responde produzindo reticulócitos.
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