Gastroenterologia · Cães e gatos

Pancreatite em cães e gatos: sinais, diagnóstico e tratamento

Publicado em 9 de outubro de 2026 · Por M.V. Aline Santos · Leitura de 8 minutos

Resumo: pancreatite é a inflamação do pâncreas causada pela ativação das enzimas digestivas dentro do próprio órgão. O sinal mais marcante é o vômito agudo com apatia. O exame mais útil é a lipase pancreática específica (SNAP e Spec cPL/fPL), e o tratamento se apoia em três pilares: fluidoterapia, analgesia e controle do vômito com alimentação precoce. Antibiótico, corticoide e anti-inflamatório não fazem parte do protocolo de rotina.

O que é
Inflamação do pâncreas por autodigestão enzimática
Causa
Desconhecida em cerca de 95% dos casos
Sinal-chave
Vômito agudo com apatia e anorexia
Exame-chave
Lipase pancreática específica (cPL/fPL)
Tratamento
Fluido, analgesia, antiemético e dieta
Evitar
AINE; antibiótico e corticoide sem indicação

Para que serve o pâncreas

O pâncreas tem duas funções. A porção endócrina produz hormônios como insulina, glucagon e somatostatina, essenciais para o controle da glicemia. Mas mais de 90% do órgão é exócrino: são os ácinos que produzem as enzimas digestivas (amilases, lipases e proteases) do suco pancreático.

Essas enzimas saem do pâncreas na forma inativa (zimogênios). O tripsinogênio, por exemplo, só vira tripsina dentro do intestino delgado, onde ativa as outras enzimas em cascata. Esse detalhe é a chave para entender a doença.

O que é pancreatite

Pancreatite é a inflamação do pâncreas. Quando as enzimas são ativadas dentro do próprio tecido pancreático, o órgão começa a se autodigerir. Isso libera mediadores inflamatórios, atrai células inflamatórias e provoca isquemia e necrose.

Esses mediadores também caem na circulação. Por isso a pancreatite muitas vezes deixa de ser um problema local e evolui para uma síndrome de resposta inflamatória sistêmica (SIRS), com hipotensão, má perfusão e risco de vida.

Aguda ou crônica?

Na histologia, a forma aguda tem edema, infiltrado neutrofílico e necrose. A crônica tem infiltrado linfoplasmocitário e fibrose. Na prática clínica, essa diferença não muda a conduta. Ela importa no diagnóstico, porque a forma crônica é mais difícil de detectar nos exames.

O que causa a pancreatite

Em cerca de 95% dos cães e gatos, a causa é desconhecida. Alguns fatores conhecidos:

Importante: pancreatite não é uma doença bacteriana nem um evento séptico. Essa informação muda o tratamento, como você vai ver adiante.

Sinais clínicos

Os sinais são inespecíficos, e por isso a pancreatite precisa estar sempre na lista de diferenciais:

O que esperar nos exames

Hemograma

Bioquímica sérica

Urinálise e líquido livre

A urinálise ajuda a diferenciar azotemia pré-renal de renal: na pré-renal, espera-se densidade urinária acima de 1,030 no cão e acima de 1,035 no gato. Pode haver pouco líquido livre ao redor do pâncreas. Se for possível coletar, um exsudato asséptico no cão é uma forte pista de pancreatite.

Lipase pancreática específica: o exame-chave

Não existe padrão-ouro isolado para a pancreatite. O diagnóstico junta clínica, exames gerais e, principalmente, a lipase pancreática específica.

Amilase e lipase do bioquímico de rotina: no cão, a sensibilidade fica entre 30% e 70%, e as duas enzimas também são produzidas fora do pâncreas. No gato, não têm utilidade para esse diagnóstico.

ExameNormalZona cinzentaCompatível com pancreatite
Spec cPL (cão)até 200 µg/L200 a 400 µg/Lacima de 400 µg/L
Spec fPL (gato)até 3,5 µg/L3,6 a 5,3 µg/Lacima de 5,3 µg/L

Mesmo a lipase específica não é 100% definitiva. Na pancreatite crônica, principalmente no gato, o resultado pode vir normal ou na zona cinzenta. Interprete sempre junto com a clínica e, quando disponível, com o ultrassom abdominal.

Tratamento: os 3 pilares

1. Equilíbrio hídrico, eletrolítico e hemodinâmico

2. Analgesia

A dor deve ser tratada mesmo quando não está evidente. As opções vão da dipirona aos opioides, como metadona e tramadol. No gato, a buprenorfina e o butorfanol são boas opções.

3. Controle do vômito e alimentação precoce

O “nada por via oral” prolongado não é mais recomendado. Controle o vômito com antiemético e, assim que ele parar, reintroduza a alimentação. Prefira uma dieta com baixo teor de gordura (low fat), uma conduta que vem da medicina humana e ainda tem poucos ensaios clínicos na veterinária.

O que não usar

A pancreatite pode ser grave e tem mortalidade relevante. Por isso, reconhecer o quadro cedo e iniciar o suporte rapidamente faz diferença.

Checklist rápido para o atendimento

  1. Vômito agudo com apatia? Coloque pancreatite nos diferenciais.
  2. Peça hemograma, bioquímica (função renal, hepática e eletrólitos) e urinálise.
  3. Use o SNAP para descartar e confirme o positivo com Spec cPL ou fPL.
  4. Dose os triglicerídeos.
  5. Inicie fluidoterapia, analgesia e antiemético.
  6. Reintroduza a alimentação com dieta low fat assim que o vômito parar.
  7. Monitore pressão, perfusão, função renal e plaquetas.

Perguntas frequentes

Qual é o principal sinal de pancreatite em cães?

O vômito agudo é o sinal mais marcante, principalmente quando vem com apatia, falta de apetite e desidratação. A dor abdominal aparece em cerca de metade dos pacientes, às vezes com a posição de prece.

Qual exame confirma a pancreatite em cães e gatos?

Não existe um exame padrão-ouro isolado. O mais útil é a lipase pancreática específica: o teste rápido (SNAP cPL ou fPL) ajuda a descartar a doença quando dá negativo, e o exame quantitativo de laboratório (Spec cPL ou Spec fPL) ajuda a confirmar, sempre junto com a clínica e os outros exames.

Amilase e lipase do bioquímico servem para diagnosticar pancreatite?

Servem muito pouco. No cão, amilase e lipase total têm baixa sensibilidade e especificidade, porque também são produzidas fora do pâncreas. No gato, praticamente não têm utilidade para esse diagnóstico.

Precisa de antibiótico para tratar pancreatite?

De rotina, não. A pancreatite em cães e gatos não é uma doença bacteriana. O antibiótico só se justifica quando existe infecção ou sepse associada.

Cão com pancreatite deve ficar em jejum?

Não. O jejum prolongado não é mais recomendado. Assim que o vômito estiver controlado com antiemético, a alimentação deve ser reintroduzida, de preferência com dieta com baixo teor de gordura.

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Conteúdo educativo para estudantes de medicina veterinária e médicos veterinários, escrito pela M.V. Aline Santos, criadora do Método VDS. Não substitui a avaliação clínica de cada paciente.