Pancreatite em cães e gatos: sinais, diagnóstico e tratamento
Resumo: pancreatite é a inflamação do pâncreas causada pela ativação das enzimas digestivas dentro do próprio órgão. O sinal mais marcante é o vômito agudo com apatia. O exame mais útil é a lipase pancreática específica (SNAP e Spec cPL/fPL), e o tratamento se apoia em três pilares: fluidoterapia, analgesia e controle do vômito com alimentação precoce. Antibiótico, corticoide e anti-inflamatório não fazem parte do protocolo de rotina.
- O que é
- Inflamação do pâncreas por autodigestão enzimática
- Causa
- Desconhecida em cerca de 95% dos casos
- Sinal-chave
- Vômito agudo com apatia e anorexia
- Exame-chave
- Lipase pancreática específica (cPL/fPL)
- Tratamento
- Fluido, analgesia, antiemético e dieta
- Evitar
- AINE; antibiótico e corticoide sem indicação
Para que serve o pâncreas
O pâncreas tem duas funções. A porção endócrina produz hormônios como insulina, glucagon e somatostatina, essenciais para o controle da glicemia. Mas mais de 90% do órgão é exócrino: são os ácinos que produzem as enzimas digestivas (amilases, lipases e proteases) do suco pancreático.
Essas enzimas saem do pâncreas na forma inativa (zimogênios). O tripsinogênio, por exemplo, só vira tripsina dentro do intestino delgado, onde ativa as outras enzimas em cascata. Esse detalhe é a chave para entender a doença.
O que é pancreatite
Pancreatite é a inflamação do pâncreas. Quando as enzimas são ativadas dentro do próprio tecido pancreático, o órgão começa a se autodigerir. Isso libera mediadores inflamatórios, atrai células inflamatórias e provoca isquemia e necrose.
Esses mediadores também caem na circulação. Por isso a pancreatite muitas vezes deixa de ser um problema local e evolui para uma síndrome de resposta inflamatória sistêmica (SIRS), com hipotensão, má perfusão e risco de vida.
Aguda ou crônica?
Na histologia, a forma aguda tem edema, infiltrado neutrofílico e necrose. A crônica tem infiltrado linfoplasmocitário e fibrose. Na prática clínica, essa diferença não muda a conduta. Ela importa no diagnóstico, porque a forma crônica é mais difícil de detectar nos exames.
O que causa a pancreatite
Em cerca de 95% dos cães e gatos, a causa é desconhecida. Alguns fatores conhecidos:
- Hipertrigliceridemia: é o fator mais bem documentado. Triglicerídeos acima de 500 mg/dL aumentam o risco e devem ser tratados.
- Fármacos: alguns medicamentos, como a citarabina, podem desencadear o quadro.
- Trauma e manipulação cirúrgica do pâncreas.
Importante: pancreatite não é uma doença bacteriana nem um evento séptico. Essa informação muda o tratamento, como você vai ver adiante.
Sinais clínicos
Os sinais são inespecíficos, e por isso a pancreatite precisa estar sempre na lista de diferenciais:
- Vômito agudo: é o sinal mais marcante. Vômito com apatia, prostração e anorexia deve fazer você pensar em pancreatite.
- Desidratação: consequência do vômito, da diarreia e da baixa ingestão de água.
- Diarreia: pode acontecer, mas é menos característica que o vômito.
- Dor abdominal: aparece em cerca de metade dos animais, na palpação ou pela posição de prece. No gato, a dor costuma ser bem menos evidente.
O que esperar nos exames
Hemograma
- Eritrograma: pode mostrar hemoconcentração (eritrocitose discreta) pela desidratação ou anemia inflamatória. A anemia costuma ser moderada, mas alguns pacientes chegam a precisar de transfusão.
- Leucograma: leucocitose por neutrofilia com desvio à esquerda regenerativo, de leve a muito intensa.
- Plaquetas: a trombocitopenia aparece em cerca de 60% dos casos e é a alteração hematológica mais frequente. Ela é leve a moderada e não costuma causar sangramento. Se for grave, investigue outra causa.
Bioquímica sérica
- ALT e fosfatase alcalina: aumentos leves por hepatopatia reativa. Aumentos maiores e icterícia podem indicar obstrução biliar extra-hepática pelo pâncreas inflamado.
- No gato: fique atento à associação com colangite ou colangio-hepatite.
- Azotemia: na maioria das vezes é pré-renal e melhora com fluidoterapia. Nos casos graves com SIRS, pode haver injúria renal aguda.
Urinálise e líquido livre
A urinálise ajuda a diferenciar azotemia pré-renal de renal: na pré-renal, espera-se densidade urinária acima de 1,030 no cão e acima de 1,035 no gato. Pode haver pouco líquido livre ao redor do pâncreas. Se for possível coletar, um exsudato asséptico no cão é uma forte pista de pancreatite.
Lipase pancreática específica: o exame-chave
Não existe padrão-ouro isolado para a pancreatite. O diagnóstico junta clínica, exames gerais e, principalmente, a lipase pancreática específica.
Amilase e lipase do bioquímico de rotina: no cão, a sensibilidade fica entre 30% e 70%, e as duas enzimas também são produzidas fora do pâncreas. No gato, não têm utilidade para esse diagnóstico.
- Teste rápido (SNAP cPL no cão, SNAP fPL no gato): é ótimo para descartar. Se der negativo, provavelmente não é pancreatite. Se der positivo, o ideal é confirmar com o exame quantitativo, porque o SNAP também marca positivo na zona cinzenta.
- Exame quantitativo de laboratório (Spec cPL e Spec fPL): traz um número e é mais confirmatório.
| Exame | Normal | Zona cinzenta | Compatível com pancreatite |
|---|---|---|---|
| Spec cPL (cão) | até 200 µg/L | 200 a 400 µg/L | acima de 400 µg/L |
| Spec fPL (gato) | até 3,5 µg/L | 3,6 a 5,3 µg/L | acima de 5,3 µg/L |
Mesmo a lipase específica não é 100% definitiva. Na pancreatite crônica, principalmente no gato, o resultado pode vir normal ou na zona cinzenta. Interprete sempre junto com a clínica e, quando disponível, com o ultrassom abdominal.
Tratamento: os 3 pilares
1. Equilíbrio hídrico, eletrolítico e hemodinâmico
- Fluidoterapia com cristaloide para corrigir a desidratação e a azotemia, com volume de reposição, manutenção e perdas.
- Dosar e repor potássio e sódio conforme a necessidade.
- Na SIRS com hipotensão grave que não responde ao volume, podem ser necessários vasopressores.
- Transfusão é rara, mas pode ser preciso nos casos de anemia importante.
2. Analgesia
A dor deve ser tratada mesmo quando não está evidente. As opções vão da dipirona aos opioides, como metadona e tramadol. No gato, a buprenorfina e o butorfanol são boas opções.
3. Controle do vômito e alimentação precoce
O “nada por via oral” prolongado não é mais recomendado. Controle o vômito com antiemético e, assim que ele parar, reintroduza a alimentação. Prefira uma dieta com baixo teor de gordura (low fat), uma conduta que vem da medicina humana e ainda tem poucos ensaios clínicos na veterinária.
O que não usar
- Anti-inflamatório não esteroidal: contraindicado, inclusive pelo risco de úlcera gástrica.
- Corticoide: não há evidência de benefício na literatura atual.
- Antibiótico de rotina: a pancreatite não é bacteriana. Use apenas se houver infecção ou sepse associada.
A pancreatite pode ser grave e tem mortalidade relevante. Por isso, reconhecer o quadro cedo e iniciar o suporte rapidamente faz diferença.
Checklist rápido para o atendimento
- Vômito agudo com apatia? Coloque pancreatite nos diferenciais.
- Peça hemograma, bioquímica (função renal, hepática e eletrólitos) e urinálise.
- Use o SNAP para descartar e confirme o positivo com Spec cPL ou fPL.
- Dose os triglicerídeos.
- Inicie fluidoterapia, analgesia e antiemético.
- Reintroduza a alimentação com dieta low fat assim que o vômito parar.
- Monitore pressão, perfusão, função renal e plaquetas.
Perguntas frequentes
Qual é o principal sinal de pancreatite em cães?
O vômito agudo é o sinal mais marcante, principalmente quando vem com apatia, falta de apetite e desidratação. A dor abdominal aparece em cerca de metade dos pacientes, às vezes com a posição de prece.
Qual exame confirma a pancreatite em cães e gatos?
Não existe um exame padrão-ouro isolado. O mais útil é a lipase pancreática específica: o teste rápido (SNAP cPL ou fPL) ajuda a descartar a doença quando dá negativo, e o exame quantitativo de laboratório (Spec cPL ou Spec fPL) ajuda a confirmar, sempre junto com a clínica e os outros exames.
Amilase e lipase do bioquímico servem para diagnosticar pancreatite?
Servem muito pouco. No cão, amilase e lipase total têm baixa sensibilidade e especificidade, porque também são produzidas fora do pâncreas. No gato, praticamente não têm utilidade para esse diagnóstico.
Precisa de antibiótico para tratar pancreatite?
De rotina, não. A pancreatite em cães e gatos não é uma doença bacteriana. O antibiótico só se justifica quando existe infecção ou sepse associada.
Cão com pancreatite deve ficar em jejum?
Não. O jejum prolongado não é mais recomendado. Assim que o vômito estiver controlado com antiemético, a alimentação deve ser reintroduzida, de preferência com dieta com baixo teor de gordura.
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