Leptospirose em cães: quando suspeitar, diagnóstico e tratamento
Resumo: a leptospirose não é a doença mais comum da rotina, mas é grave, pode matar e é uma zoonose. Suspeite em cães com quadro agudo e sinais de lesão renal e/ou hepática, principalmente com leucocitose e trombocitopenia. Sorologia e PCR têm limitações, e o resultado sempre precisa ser lido junto com a clínica. Com suspeita consistente, não espere a confirmação para tratar: a doxiciclina é o antimicrobiano de escolha, e o suporte renal e hepático é decisivo.
- Agente
- Leptospira interrogans e L. kirschneri
- Alvos
- Rins e fígado, principalmente
- Pista-chave
- Lesão renal + hepática + leucocitose
- Diagnóstico
- Clínica + MAT pareado e/ou PCR
- Tratamento
- Doxiciclina; penicilina IV se vomita
- Zoonose
- Luvas e cuidado com a urina
Neste artigo, explico quais combinações de sinais e exames devem colocar a leptospirose no topo da sua lista e como agir sem perder tempo.
Agente e transmissão
A leptospirose é causada por espiroquetas do gênero Leptospira. As espécies mais importantes em cães são L. interrogans e L. kirschneri, com vários sorovares, como Icterohaemorrhagiae, Canicola, Pomona e Grippotyphosa. Sorovares diferentes podem causar quadros e gravidades diferentes.
A bactéria entra pelas mucosas íntegras ou pela pele lesionada, em contato com urina, água, solo ou alimento contaminados. Também há transmissão por mordedura, venérea e transplacentária, menos importantes na rotina. Enchentes, roedores e água parada aumentam o risco.
Algumas espécies animais funcionam como reservatórios: albergam a bactéria sem adoecer e a eliminam pela urina. Por isso, encontrar a leptospira em um cão nem sempre significa que ela é a causa da doença atual.
O que a bactéria faz
A leptospira tem tropismo principalmente por rins e fígado. Causa injúria renal aguda (nefrite intersticial e lesão tubular) e lesão hepatocelular com colestase. Pode afetar músculos, vasos (vasculite e CID) e pulmões: a síndrome hemorrágica pulmonar é descrita em cães e tem prognóstico ruim.
O curso pode ser hiperagudo (fulminante, às vezes sem tempo de surgirem sinais renais ou hepáticos), agudo ou subagudo, ou evoluir para hepatite crônica.
Sinais clínicos
- Apatia, anorexia, vômito e febre, de início agudo.
- Hiperestesia muscular: dor à palpação, relutância em se mover.
- Oligúria ou poliúria, desidratação.
- Icterícia de origem hepática.
- Sinais de CID: petéquias, equimoses, sangramento gengival, epistaxe, melena.
- Taquipneia e dispneia, nos casos com envolvimento pulmonar.
Achados laboratoriais
Hemograma
- Leucocitose por neutrofilia, com ou sem desvio à esquerda, na maioria dos casos. Nos quadros hiperagudos pode haver leucograma normal ou leucopenia.
- Trombocitopenia, por consumo e destruição, às vezes intensa.
- Anemia, que pode ser regenerativa (hemorragia) ou arregenerativa (inflamação e doença renal).
Bioquímica
- Azotemia renal, pela injúria renal aguda.
- Aumento importante de ALT (lesão hepatocelular) e de fosfatase alcalina e bilirrubina (colestase intra-hepática).
- Distúrbios eletrolíticos, como hipocalemia ou hipercalemia, conforme o débito urinário.
Urinálise
- Densidade urinária inadequada para um paciente desidratado, muitas vezes isostenúria.
- Glicosúria com glicemia normal (lesão tubular), proteinúria e cilindros.
- Piúria e hematúria sem bacteriúria.
Pista de ouro: poucas doenças causam ao mesmo tempo lesão renal aguda, lesão hepática, leucocitose e trombocitopenia. Diante dessa combinação, a leptospirose deve subir para o topo da lista.
Diagnóstico
Sorologia (MAT)
Um título positivo isolado não confirma doença: pode ser vacinal ou de exposição prévia. O diagnóstico sorológico é feito por:
- soroconversão: título negativo que se torna positivo;
- aumento de quatro vezes no título em amostras pareadas com 2 a 4 semanas de intervalo;
- título isolado muito alto (por exemplo, 1:3.200 ou mais) em cão com quadro compatível, como forte indício.
O sorovar com maior título não necessariamente é o causador. E o resultado pareado chega tarde para decidir o tratamento.
PCR, cultura e microscopia
O PCR em sangue (fase inicial) e em urina (a partir de cerca de uma semana) é o exame mais útil na rotina. A cultura é demorada e a microscopia de campo escuro é pouco sensível. Cuidado com as duas limitações:
- Falso positivo clínico: cães portadores podem ser positivos sem estar doentes por leptospira.
- Falso negativo: a eliminação na urina é intermitente, e o uso prévio de antibiótico reduz a detecção. Colha as amostras antes de iniciar o antimicrobiano, sempre que possível.
Tratamento
Não espere a confirmação. Com clínica e laboratório compatíveis, inicie o tratamento. Se depois outro diagnóstico for confirmado, ajuste a conduta.
- Doxiciclina é o antimicrobiano de escolha, por cerca de 2 semanas: elimina a leptospiremia e o estado de portador renal.
- Em cães que vomitam ou não toleram medicação oral, comece com penicilina ou ampicilina por via intravenosa e passe para doxiciclina assim que possível.
- Suporte: fluidoterapia guiada pelo débito urinário, correção eletrolítica, antieméticos, protetores gástricos quando indicado e analgesia.
- Monitore de perto a produção de urina. Oligúria ou anúria que não respondem ao tratamento podem exigir hemodiálise.
Mesmo tratada, a leptospirose com injúria renal aguda grave tem prognóstico reservado, principalmente onde não há suporte intensivo.
Cuidados com a zoonose e prevenção
- Use luvas e evite contato com a urina. Mantenha o paciente em área separada e higienize o ambiente.
- Oriente o tutor sobre o risco e a procurar atendimento médico se tiver sintomas.
- A vacinação reduz a doença pelos sorovares incluídos na vacina e deve ter reforço anual nos cães em risco.
Perguntas frequentes
Quando suspeitar de leptospirose em um cão?
Suspeite em cães com quadro agudo de apatia, anorexia, vômito, febre ou dor muscular, principalmente quando há sinais de lesão renal aguda e/ou hepática, leucocitose e trombocitopenia, e histórico de exposição a água, enchentes, roedores ou ambientes contaminados.
Qual o tratamento da leptospirose em cães?
A doxiciclina é o antimicrobiano de escolha, porque elimina a leptospiremia e o estado de portador renal. Em cães que vomitam e não toleram medicação oral, inicia-se com penicilina ou ampicilina por via intravenosa e depois se completa o tratamento com doxiciclina. O suporte para a lesão renal e hepática é fundamental.
A sorologia confirma leptospirose?
Um único resultado positivo não confirma, porque cães vacinados ou expostos podem ter títulos. A confirmação vem do aumento de quatro vezes no título em amostras pareadas com 2 a 4 semanas de intervalo, ou de um título isolado muito alto em cão com quadro compatível.
Leptospirose em cão passa para humanos?
Sim, a leptospirose é uma zoonose. Cães infectados eliminam a bactéria pela urina. Use luvas, evite contato com urina, higienize o ambiente e oriente o tutor a procurar atendimento médico se tiver sintomas.
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