Cinomose canina: sintomas, diagnóstico e tratamento
Resumo: a cinomose é uma doença viral multissistêmica dos cães, causada por um morbilivírus parente do vírus do sarampo. Pode causar sinais cutâneos, oculares, respiratórios, gastrointestinais e neurológicos, e todo cão com sinal neurológico deve ter a cinomose na lista de diferenciais. O diagnóstico de rotina é feito por PCR ou teste rápido. Não há antiviral específico: o tratamento é de suporte, e a melhor proteção é a vacinação.
- Agente
- Morbilivírus (Paramyxoviridae), RNA envelopado
- Transmissão
- Aerossóis e contato próximo; fômites
- Eliminação
- Até cerca de 90 dias, mesmo sem sinais
- Diagnóstico
- PCR ou teste rápido de antígeno
- Tratamento
- Suporte; sem antiviral específico
- Prevenção
- Vacinação e isolamento
Neste artigo, reuni o que você precisa saber para reconhecer a cinomose cedo, mesmo quando ela começa com sinais discretos, e conduzir o paciente com segurança.
O vírus
O vírus da cinomose é um morbilivírus da família Paramyxoviridae, de RNA de fita simples e envelopado, muito parecido com o vírus do sarampo humano. Ele tem três afinidades principais, que explicam a variedade de sinais:
- Linfotropismo: afinidade pelo tecido linfoide, o que causa imunossupressão.
- Epiteliotropismo: afinidade pelos epitélios da pele, das mucosas, do trato respiratório e do digestivo.
- Neurotropismo: afinidade pelo sistema nervoso central, responsável pelas formas mais graves.
A cinomose não é considerada zoonose, mas afeta outros carnívoros, inclusive canídeos silvestres.
Transmissão
O vírus é frágil no ambiente, então a transmissão depende principalmente de contato próximo e de aerossóis. Os fômites também contam: roupas, calçados e mãos de quem circula em hospitais veterinários podem levar o vírus para casa. Por isso, troque de roupa e calçado antes de ter contato com cães suscetíveis, principalmente filhotes ainda sem o protocolo vacinal completo.
Cães infectados podem eliminar o vírus em secreções e excreções por até cerca de 90 dias, mesmo depois que os sinais melhoram. A transmissão transplacentária já foi descrita.
Patogenia
O vírus entra pela via oronasal e se replica primeiro nos macrófagos e tecidos linfoides do trato respiratório superior, como tonsilas e linfonodos regionais. Depois se espalha pelo sistema linfoide e entra em viremia dentro de células mononucleares, chegando aos epitélios e, em parte dos cães, ao sistema nervoso central.
No sistema nervoso, a desmielinização parece depender mais da resposta imunológica do próprio cão do que do efeito direto do vírus. Isso ajuda a entender por que cães de uma mesma ninhada podem ter quadros muito diferentes: um com convulsões, outro só com conjuntivite, outro sem sinais.
Sinais clínicos
Sinais sistêmicos e iniciais
- Pústulas abdominais, comuns em filhotes. Não confunda com piodermite ou celulite juvenil: na dúvida, avalie, faça hemograma e acompanhe antes de vacinar.
- Secreção ocular e nasal, que pode começar serosa e ficar mucopurulenta. Não espere secreção purulenta para suspeitar.
- Febre, que depende da fase em que o paciente chega.
- Linfonodos reativos.
- Hiperqueratose de coxins e plano nasal, em alguns casos.
Sinais gastrointestinais e respiratórios
Vômito, diarreia (que pode ser hemorrágica), tosse e sinais de pneumonia, geralmente ao mesmo tempo. Diarreia com sangue em filhote costuma levar direto à parvovirose, mas a cinomose também pode causá-la: evite associar um sinal a uma única doença.
Sinais neurológicos
Podem aparecer junto com os sistêmicos ou semanas depois. Não há um padrão fixo:
- Hiperestesia e rigidez cervical (meningite).
- Convulsões.
- Mioclonias.
- Sinais cerebelares, como hipermetria.
- Síndrome vestibular central, com inclinação de cabeça, andar em círculos e nistagmo.
- Paresias e plegias, inclusive só nos membros pélvicos, com ataxia.
Regra prática: até que se prove o contrário, todo cão com sinal neurológico deve ter a cinomose descartada.
Diagnóstico
Hemograma
Ajuda, mas não é específico. Na fase inicial é comum leucopenia com linfopenia e trombocitopenia. Mais adiante, pode haver neutrofilia, inclusive com desvio à esquerda, sem que isso signifique infecção bacteriana. Anemia arregenerativa discreta, da inflamação, também é comum.
Cuidado com o atalho "trombocitopenia, então erliquiose, então doxiciclina": na cinomose, a trombocitopenia é do próprio vírus.
Exames específicos
- PCR: em swab conjuntival, sangue, urina ou líquor. É o exame mais usado.
- Teste rápido de antígeno: prático e barato, inclusive no líquor nos casos neurológicos.
- Análise de líquor: nos casos neurológicos, mostra inflamação e permite PCR.
- Sorologia: pouco útil na rotina. Exige amostras pareadas com aumento de título em 2 a 3 semanas, ou IgM, e sofre interferência da vacinação.
Tratamento
Não existe antiviral específico. O tratamento é de suporte:
- Isolamento do paciente.
- Fluidoterapia e suporte nutricional.
- Antimicrobiano de amplo espectro quando há sinais de infecção bacteriana secundária, como broncopneumonia, comum por causa da imunossupressão.
- Antieméticos e analgésicos conforme a necessidade.
- Anticonvulsivantes quando há convulsões.
- Suplementos vitamínicos e imunomoduladores são usados por alguns clínicos, mas o benefício é controverso.
E o corticoide na fase neurológica?
A ideia de usar corticoide vinha da hipótese de desmielinização imunomediada. Mas os estudos que testaram essa estratégia não mostraram menos mortes nem melhor evolução. Hoje, ele não é recomendado de rotina.
Prognóstico e prevenção
Cães sem envolvimento neurológico podem se recuperar com suporte. Com sinais neurológicos, o prognóstico é reservado a ruim, e quem sobrevive pode ficar com sequelas como mioclonias. A prevenção é a vacinação, com protocolo completo em filhotes e reforços conforme as diretrizes, além de isolamento e higiene no hospital.
Perguntas frequentes
Cinomose pega em humanos ou em gatos?
A cinomose não é considerada uma zoonose e não é uma doença de gatos domésticos. O vírus afeta cães e outros carnívoros, como canídeos silvestres. Mesmo assim, é preciso cuidado com higiene e isolamento para não levar o vírus a outros cães.
Cinomose tem cura?
Não existe antiviral específico. O tratamento é de suporte, e alguns cães se recuperam, principalmente quando não há envolvimento neurológico. Quando o vírus atinge o sistema nervoso central, o prognóstico é reservado a ruim e podem ficar sequelas como mioclonias.
Como confirmar o diagnóstico de cinomose?
Na rotina, os exames mais usados são o PCR e o teste rápido de antígeno, em amostras como swab conjuntival, sangue, urina ou líquor. A sorologia tem uso limitado porque demora e sofre interferência da vacinação.
Corticoide é indicado na cinomose neurológica?
Os estudos disponíveis não mostraram benefício do corticoide na fase neurológica da cinomose, e ele não é recomendado de rotina.
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