Como interpretar o hemograma de cães e gatos: guia prático
Resumo: o hemograma se interpreta em etapas e sempre junto com a clínica do paciente. No eritrograma, o hematócrito diz se há anemia e a contagem de reticulócitos diz se ela é regenerativa (hemólise ou hemorragia) ou arregenerativa (problema de produção). No leucograma, os valores absolutos mostram padrões como inflamação (neutrofilia com desvio à esquerda) ou estresse e corticoide. As plaquetas e as observações morfológicas do laudo, como esferócitos e autoaglutinação, muitas vezes fecham o diagnóstico.
- 1º passo
- Anamnese e exame físico antes do exame
- Eritrograma
- Hematócrito e reticulócitos definem a anemia
- Leucograma
- Sempre pelos valores absolutos
- Desvio à esquerda
- Inflamação, não necessariamente infecção
- Plaquetas
- Descarte agregados antes de concluir
- Observações
- Esferócitos e aglutinação mudam tudo
Neste artigo, mostro o passo a passo que eu recomendo para ler um hemograma do começo ao fim, sem pular as informações que mais ajudam no diagnóstico.
Antes do hemograma: a clínica
O hemograma não se interpreta isolado. Mucosas pálidas, taquicardia e taquipneia combinam com anemia importante; urina escura pode indicar bilirrubinúria, hemoglobinúria ou mioglobinúria; icterícia sugere hemólise ou doença hepatobiliar. Tenha esses achados em mente antes de abrir o laudo.
1. Eritrograma: existe anemia?
Hematócrito, contagem de hemácias e hemoglobina normalmente caminham juntos. Na prática, o hematócrito é o principal parâmetro. Abaixo da referência, há anemia.
Atenção à hidratação: no paciente desidratado, a hemoconcentração mascara a anemia. Depois da fluidoterapia o hematócrito cai, e a anemia pode se revelar mais grave do que parecia.
Se o hematócrito estiver aumentado, pense em desidratação (eritrocitose relativa) antes de pensar em eritrocitose verdadeira.
Índices eritrocitários: ajudam, mas não definem
VCM alto e CHCM baixo (anemia macrocítica hipocrômica) sugerem presença de células jovens. Mas a maioria das anemias regenerativas não tem esse padrão. Os índices só têm sentido quando existe anemia e nunca substituem a contagem de reticulócitos.
Reticulócitos: a pergunta mais importante
Toda vez que encontrar anemia, pergunte: ela é regenerativa ou arregenerativa? A resposta vem da contagem de reticulócitos, de preferência em valor absoluto (porcentagem de reticulócitos × contagem de hemácias).
| Reticulócitos absolutos (cão) | Interpretação |
|---|---|
| Até cerca de 60.000/µL | Sem regeneração significativa |
| Cerca de 60.000 a 200.000/µL | Regeneração presente, de leve a moderada |
| Acima de cerca de 200.000/µL | Regeneração intensa |
Confira as faixas do seu laboratório e lembre que a resposta medular leva alguns dias: nos primeiros 3 a 4 dias após uma perda aguda, a anemia pode parecer arregenerativa.
- Regenerativa: hemólise ou hemorragia. A medula está funcionando.
- Arregenerativa extramedular: principalmente doença renal crônica (falta de eritropoetina) e inflamação crônica.
- Arregenerativa intramedular: doenças infecciosas como erliquiose e leishmaniose, causas tóxicas (estrógeno, quimioterápicos), aplasias e invasão da medula por células neoplásicas.
Quando a causa é medular, é comum haver outras citopenias junto, como leucopenia e trombocitopenia.
2. Leucograma: qual é o padrão?
Interprete sempre pelos valores absolutos, nunca só pelas porcentagens. Os padrões mais importantes:
- Neutrofilia com desvio à esquerda: aumento de neutrófilos com bastonetes acima da referência. Indica inflamação ativa, que pode ser infecciosa ou não: doenças imunomediadas, necrose e neoplasias também causam esse padrão. Sozinho, não justifica antibiótico.
- Leucograma de estresse ou de corticoide: neutrofilia madura, linfopenia, eosinopenia e, no cão, monocitose. Lembre de perguntar se o paciente usa prednisona ou outro corticoide.
- Leucopenia: pode indicar consumo intenso (inflamação grave, sepse) ou falha de produção medular.
3. Plaquetas
Antes de concluir que há trombocitopenia, verifique se o laudo descreve agregados plaquetários. Eles fazem a contagem automática cair muito, às vezes para dezenas de milhares, sem que o paciente tenha trombocitopenia de verdade. Com agregados, repita a coleta.
Confirmada a trombocitopenia, pense nos 4 mecanismos: diminuição da produção, destruição, consumo e sequestro. Trombocitopenia isolada e intensa tem uma lista de diferenciais mais curta do que quando há várias citopenias juntas. Explico em detalhe no artigo sobre trombocitopenia em cães.
4. Observações morfológicas: não pule esta parte
As observações escritas no fim do laudo muitas vezes fazem toda a diferença:
- Esferócitos: hemácias que perderam a palidez central depois de serem parcialmente fagocitadas por macrófagos. Em número significativo, sugerem anemia hemolítica imunomediada, principalmente no cão.
- Autoaglutinação: hemácias que se agrupam pela presença de anticorpos. Confirme misturando uma gota de sangue com solução salina na lâmina: se os grumos persistem, é autoaglutinação.
- Policromasia e metarrubrícitos: reforçam a resposta regenerativa.
- Hemoparasitas e corpúsculos de inclusão: orientam a investigação infecciosa.
Exemplo de raciocínio
Um cão adulto chega apático, com hiporexia, urina escura, mucosas muito pálidas, taquicardia e taquipneia. O hemograma mostra:
- hematócrito muito baixo, com VCM aumentado;
- reticulócitos em torno de 200.000/µL (anemia regenerativa);
- leucocitose por neutrofilia com desvio à esquerda;
- plaquetas normais;
- esferócitos e autoaglutinação nas observações.
A bioquímica mostra bilirrubina total bem elevada.
O raciocínio: anemia regenerativa significa hemólise ou hemorragia. Esferócitos, autoaglutinação e hiperbilirrubinemia apontam para hemólise imunomediada. A neutrofilia com desvio à esquerda é esperada nesse quadro inflamatório e não indica, por si só, infecção.
Checklist de leitura do hemograma
- Revise a anamnese, o exame físico e o estado de hidratação.
- Veja o hematócrito: há anemia ou hemoconcentração?
- Se há anemia, classifique pela contagem de reticulócitos.
- Use os índices como apoio, nunca como definição.
- Interprete o leucograma pelos valores absolutos e identifique o padrão.
- Confira as plaquetas e a presença de agregados.
- Leia todas as observações morfológicas.
- Junte tudo com a bioquímica e a clínica.
Perguntas frequentes
Por onde começar a interpretar o hemograma de um cão ou gato?
Comece pela anamnese e pelo exame físico, depois avalie o hematócrito para saber se há anemia ou hemoconcentração, classifique a anemia pela contagem de reticulócitos, interprete o leucograma pelos valores absolutos, confira as plaquetas e leia sempre as observações morfológicas do laudo.
Neutrofilia com desvio à esquerda significa infecção?
Não necessariamente. Neutrofilia com desvio à esquerda indica um processo inflamatório, que pode ou não ser infeccioso. Doenças imunomediadas, necrose e neoplasias também causam esse padrão, e por isso ele sozinho não justifica antibiótico.
O que significam esferócitos e autoaglutinação no hemograma?
Esferócitos e autoaglutinação são achados que apontam para anemia hemolítica imunomediada, principalmente no cão, quando acompanham uma anemia regenerativa. A autoaglutinação pode ser confirmada com o teste em lâmina com solução salina.
Hematócrito baixo sempre indica anemia?
Sim, hematócrito abaixo da referência indica anemia. E ela pode ser ainda mais grave do que parece em um animal desidratado, porque a hemoconcentração mascara a queda; após a fluidoterapia, o hematócrito tende a cair.
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