Patologia clínica · Cães e gatos

Como interpretar o hemograma de cães e gatos: guia prático

Publicado em 9 de outubro de 2026 · Por M.V. Aline Santos · Leitura de 9 minutos

Resumo: o hemograma se interpreta em etapas e sempre junto com a clínica do paciente. No eritrograma, o hematócrito diz se há anemia e a contagem de reticulócitos diz se ela é regenerativa (hemólise ou hemorragia) ou arregenerativa (problema de produção). No leucograma, os valores absolutos mostram padrões como inflamação (neutrofilia com desvio à esquerda) ou estresse e corticoide. As plaquetas e as observações morfológicas do laudo, como esferócitos e autoaglutinação, muitas vezes fecham o diagnóstico.

1º passo
Anamnese e exame físico antes do exame
Eritrograma
Hematócrito e reticulócitos definem a anemia
Leucograma
Sempre pelos valores absolutos
Desvio à esquerda
Inflamação, não necessariamente infecção
Plaquetas
Descarte agregados antes de concluir
Observações
Esferócitos e aglutinação mudam tudo

Neste artigo, mostro o passo a passo que eu recomendo para ler um hemograma do começo ao fim, sem pular as informações que mais ajudam no diagnóstico.

Antes do hemograma: a clínica

O hemograma não se interpreta isolado. Mucosas pálidas, taquicardia e taquipneia combinam com anemia importante; urina escura pode indicar bilirrubinúria, hemoglobinúria ou mioglobinúria; icterícia sugere hemólise ou doença hepatobiliar. Tenha esses achados em mente antes de abrir o laudo.

1. Eritrograma: existe anemia?

Hematócrito, contagem de hemácias e hemoglobina normalmente caminham juntos. Na prática, o hematócrito é o principal parâmetro. Abaixo da referência, há anemia.

Atenção à hidratação: no paciente desidratado, a hemoconcentração mascara a anemia. Depois da fluidoterapia o hematócrito cai, e a anemia pode se revelar mais grave do que parecia.

Se o hematócrito estiver aumentado, pense em desidratação (eritrocitose relativa) antes de pensar em eritrocitose verdadeira.

Índices eritrocitários: ajudam, mas não definem

VCM alto e CHCM baixo (anemia macrocítica hipocrômica) sugerem presença de células jovens. Mas a maioria das anemias regenerativas não tem esse padrão. Os índices só têm sentido quando existe anemia e nunca substituem a contagem de reticulócitos.

Reticulócitos: a pergunta mais importante

Toda vez que encontrar anemia, pergunte: ela é regenerativa ou arregenerativa? A resposta vem da contagem de reticulócitos, de preferência em valor absoluto (porcentagem de reticulócitos × contagem de hemácias).

Reticulócitos absolutos (cão)Interpretação
Até cerca de 60.000/µLSem regeneração significativa
Cerca de 60.000 a 200.000/µLRegeneração presente, de leve a moderada
Acima de cerca de 200.000/µLRegeneração intensa

Confira as faixas do seu laboratório e lembre que a resposta medular leva alguns dias: nos primeiros 3 a 4 dias após uma perda aguda, a anemia pode parecer arregenerativa.

Quando a causa é medular, é comum haver outras citopenias junto, como leucopenia e trombocitopenia.

2. Leucograma: qual é o padrão?

Interprete sempre pelos valores absolutos, nunca só pelas porcentagens. Os padrões mais importantes:

3. Plaquetas

Antes de concluir que há trombocitopenia, verifique se o laudo descreve agregados plaquetários. Eles fazem a contagem automática cair muito, às vezes para dezenas de milhares, sem que o paciente tenha trombocitopenia de verdade. Com agregados, repita a coleta.

Confirmada a trombocitopenia, pense nos 4 mecanismos: diminuição da produção, destruição, consumo e sequestro. Trombocitopenia isolada e intensa tem uma lista de diferenciais mais curta do que quando há várias citopenias juntas. Explico em detalhe no artigo sobre trombocitopenia em cães.

4. Observações morfológicas: não pule esta parte

As observações escritas no fim do laudo muitas vezes fazem toda a diferença:

Exemplo de raciocínio

Um cão adulto chega apático, com hiporexia, urina escura, mucosas muito pálidas, taquicardia e taquipneia. O hemograma mostra:

A bioquímica mostra bilirrubina total bem elevada.

O raciocínio: anemia regenerativa significa hemólise ou hemorragia. Esferócitos, autoaglutinação e hiperbilirrubinemia apontam para hemólise imunomediada. A neutrofilia com desvio à esquerda é esperada nesse quadro inflamatório e não indica, por si só, infecção.

Checklist de leitura do hemograma

  1. Revise a anamnese, o exame físico e o estado de hidratação.
  2. Veja o hematócrito: há anemia ou hemoconcentração?
  3. Se há anemia, classifique pela contagem de reticulócitos.
  4. Use os índices como apoio, nunca como definição.
  5. Interprete o leucograma pelos valores absolutos e identifique o padrão.
  6. Confira as plaquetas e a presença de agregados.
  7. Leia todas as observações morfológicas.
  8. Junte tudo com a bioquímica e a clínica.

Perguntas frequentes

Por onde começar a interpretar o hemograma de um cão ou gato?

Comece pela anamnese e pelo exame físico, depois avalie o hematócrito para saber se há anemia ou hemoconcentração, classifique a anemia pela contagem de reticulócitos, interprete o leucograma pelos valores absolutos, confira as plaquetas e leia sempre as observações morfológicas do laudo.

Neutrofilia com desvio à esquerda significa infecção?

Não necessariamente. Neutrofilia com desvio à esquerda indica um processo inflamatório, que pode ou não ser infeccioso. Doenças imunomediadas, necrose e neoplasias também causam esse padrão, e por isso ele sozinho não justifica antibiótico.

O que significam esferócitos e autoaglutinação no hemograma?

Esferócitos e autoaglutinação são achados que apontam para anemia hemolítica imunomediada, principalmente no cão, quando acompanham uma anemia regenerativa. A autoaglutinação pode ser confirmada com o teste em lâmina com solução salina.

Hematócrito baixo sempre indica anemia?

Sim, hematócrito abaixo da referência indica anemia. E ela pode ser ainda mais grave do que parece em um animal desidratado, porque a hemoconcentração mascara a queda; após a fluidoterapia, o hematócrito tende a cair.

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Escrevi este conteúdo para estudantes de medicina veterinária e médicos veterinários. Sou a M.V. Aline Santos, criadora do Método VDS. Os valores de referência variam entre laboratórios. Este conteúdo não substitui a avaliação clínica de cada paciente.