Patologia clínica · Cães e gatos

Coleta de sangue em cães e gatos: como evitar erros que estragam o exame

Atualizado em 13 de outubro de 2026 · Por M.V. Aline Santos · Leitura de 8 minutos

Resumo: a maior parte dos erros de um hemograma ou bioquímico acontece antes do laboratório, na coleta. Para uma amostra confiável: respeite o jejum, deixe o paciente em repouso e aquecido, prepare todo o material antes, prefira a veia jugular, use agulha de calibre adequado e seringa de 5 mL, coloque o sangue primeiro no tubo com EDTA, respeite o volume do tubo e homogeneíze com delicadeza. Hemólise, lipemia e agregados plaquetários podem mudar o resultado a ponto de mudar a sua conduta.

Jejum
4 h para hemograma; 8 a 12 h para bioquímicos
Local
Jugular, sempre que possível
Seringa
5 mL é a mais equilibrada
Ordem
EDTA primeiro, depois soro
Volume
Até a marca do tubo
Processar
Hemograma idealmente em até 4 a 8 h

Neste artigo, mostro o passo a passo que eu recomendo para coletar sangue de cães e gatos sem perder a amostra e sem gerar resultados falsos.

1. Prepare o paciente

Lipemia: a amostra leitosa, por gordura, altera hemoglobina, índices eritrocitários, vários bioquímicos e até eletrólitos. Se o paciente comeu há pouco e a amostra vier lipêmica, o melhor é repetir a coleta em jejum, e não tentar interpretar.

2. Prepare o material antes de começar

Tubos, seringa, agulha, álcool, algodão, tricótomo e etiquetas devem estar à mão antes de puncionar. Sair correndo atrás de um tubo no meio da coleta é receita para coágulo.

3. Antissepsia sem exagero

Faça a tricotomia sempre que possível: ela melhora a antissepsia e a visualização da veia. Use álcool 70% e espere cerca de 30 segundos antes de puncionar.

Erro comum: encharcar o local com álcool para "achar a veia". O excesso de álcool em contato com a agulha e o sangue causa hemólise. É por isso que a tricotomia faz diferença.

4. Escolha o local e colete com técnica

Coletas demoradas, múltiplas punções e "procurar a veia" com a agulha são as principais causas de coágulos e fibrina na amostra.

5. Transfira para os tubos na ordem certa

  1. EDTA (tampa roxa) primeiro: para hemograma. Na coleta com seringa, sem vácuo, a coagulação começa rápido e atrasar o EDTA gera agregados plaquetários.
  2. Tubo para soro (tampa vermelha ou amarela) depois: para bioquímicos.

Os 3 erros que mais mudam o resultado

ErroCausasO que altera
HemóliseColeta traumática, agulha fina, êmbolo puxado com força, excesso de álcool, homogeneização brusca, calor, gelo direto, demora para processarVários bioquímicos, hemoglobina e índices eritrocitários
LipemiaFalta de jejum ou doença que cursa com lipemiaHemoglobina, índices, bioquímicos e eletrólitos
Coágulos e agregados plaquetáriosColeta demorada, contenção ruim, múltiplas punções, EDTA tardeFalsa trombocitopenia, às vezes intensa, e erros no eritrograma

Se o laudo descreve agregados plaquetários, a contagem de plaquetas não é confiável: repita a coleta. Expliquei isso em detalhe no artigo sobre trombocitopenia em cães.

6. Conservação e envio

Perguntas frequentes

Cão precisa de jejum para exame de sangue?

Para hemograma, cerca de 4 horas de jejum costumam bastar. Para bioquímicos, o ideal é 8 a 12 horas, e para colesterol, triglicerídeos e glicemia, 12 horas. Filhotes são exceção e não devem ficar tanto tempo em jejum. A falta de jejum causa lipemia, que altera vários resultados.

Qual o melhor local para coleta de sangue em cães e gatos?

A veia jugular, pelo calibre e pela velocidade da coleta, o que reduz hemólise e formação de coágulos. A cefálica pode ser usada quando o comportamento do paciente ou a equipe disponível não permitem a jugular, mas tende a ser mais lenta. Em gatos, a safena medial é outra opção.

Qual tubo encher primeiro: EDTA ou soro?

Na coleta com seringa e agulha, sem sistema a vácuo, coloque primeiro no tubo com EDTA (tampa roxa) e depois no tubo para soro (tampa vermelha ou amarela). A coagulação começa rápido, e atrasar o EDTA aumenta agregados plaquetários e coágulos.

O que causa hemólise na amostra de sangue?

Coleta traumática, agulha muito fina, puxar o êmbolo com força, excesso de álcool no local da punção, homogeneização brusca do tubo, temperaturas extremas (calor ou contato direto com gelo) e demora para processar a amostra.

Método VDS

Quer dominar a coleta e a interpretação de exames?

No Método VDS, eu ensino coleta sanguínea, coleta e manejo de amostras, hemograma, bioquímicos e urinálise, além de mais de 35 doenças da rotina de cães e gatos, com lives de discussão de casos.

Quero saber mais no WhatsAppVer o conteúdo do curso

Leia também

Conteúdo educativo para estudantes de medicina veterinária e médicos veterinários. Não substitui a avaliação clínica de cada paciente.