Coleta de sangue em cães e gatos: como evitar erros que estragam o exame
Resumo: a maior parte dos erros de um hemograma ou bioquímico acontece antes do laboratório, na coleta. Para uma amostra confiável: respeite o jejum, deixe o paciente em repouso e aquecido, prepare todo o material antes, prefira a veia jugular, use agulha de calibre adequado e seringa de 5 mL, coloque o sangue primeiro no tubo com EDTA, respeite o volume do tubo e homogeneíze com delicadeza. Hemólise, lipemia e agregados plaquetários podem mudar o resultado a ponto de mudar a sua conduta.
- Jejum
- 4 h para hemograma; 8 a 12 h para bioquímicos
- Local
- Jugular, sempre que possível
- Seringa
- 5 mL é a mais equilibrada
- Ordem
- EDTA primeiro, depois soro
- Volume
- Até a marca do tubo
- Processar
- Hemograma idealmente em até 4 a 8 h
Neste artigo, mostro o passo a passo que eu recomendo para coletar sangue de cães e gatos sem perder a amostra e sem gerar resultados falsos.
1. Prepare o paciente
- Jejum: cerca de 4 horas para hemograma; 8 a 12 horas para bioquímicos; 12 horas para colesterol, triglicerídeos e glicemia. Filhotes não devem ficar tanto tempo sem comer.
- Repouso: exercício recente altera a amostra. Se o paciente chegou caminhando ou agitado, espere cerca de 30 minutos.
- Temperatura: frio causa vasoconstrição periférica e facilita a hemólise. Uma coberta na mesa ajuda.
- Oriente antes: treine a recepção para avisar o tutor, já no agendamento, sobre o jejum quando houver chance de exame.
Lipemia: a amostra leitosa, por gordura, altera hemoglobina, índices eritrocitários, vários bioquímicos e até eletrólitos. Se o paciente comeu há pouco e a amostra vier lipêmica, o melhor é repetir a coleta em jejum, e não tentar interpretar.
2. Prepare o material antes de começar
Tubos, seringa, agulha, álcool, algodão, tricótomo e etiquetas devem estar à mão antes de puncionar. Sair correndo atrás de um tubo no meio da coleta é receita para coágulo.
- Agulha: quanto maior o calibre, menor a hemólise. Em cães, as agulhas 25x7 e 25x8 são as mais usadas. Em gatos, muitos clínicos preferem uma agulha mais fina, porque a pele é mais difícil de perfurar e a coleta fica mais fluida.
- Seringa: a de 5 mL é a mais equilibrada. Seringas de 1 e 3 mL exigem mais pressão e aumentam hemólise e coagulação; a de 10 mL aumenta o contato do sangue com a superfície e a chance de fibrina.
- Scalp e cateter: facilitam o manejo, principalmente em gatos, mas aumentam o contato com o plástico e a chance de agregados plaquetários. Pese isso contra o estresse de uma contenção difícil, que também gera agregados.
3. Antissepsia sem exagero
Faça a tricotomia sempre que possível: ela melhora a antissepsia e a visualização da veia. Use álcool 70% e espere cerca de 30 segundos antes de puncionar.
Erro comum: encharcar o local com álcool para "achar a veia". O excesso de álcool em contato com a agulha e o sangue causa hemólise. É por isso que a tricotomia faz diferença.
4. Escolha o local e colete com técnica
- Jugular: a melhor opção em cães e gatos, pelo calibre e pela rapidez.
- Cefálica: possível quando o comportamento do paciente ou a equipe não permitem a jugular, mas é mais lenta, colaba com facilidade e aumenta a chance de coágulo. Evite para hemograma quando puder.
- Gatos: quando a contenção para a jugular é difícil, a safena medial é uma alternativa.
- Duas pessoas: na grande maioria das coletas, uma contém e outra coleta. Contenção ruim prolonga a coleta e gera coágulos.
Coletas demoradas, múltiplas punções e "procurar a veia" com a agulha são as principais causas de coágulos e fibrina na amostra.
5. Transfira para os tubos na ordem certa
- EDTA (tampa roxa) primeiro: para hemograma. Na coleta com seringa, sem vácuo, a coagulação começa rápido e atrasar o EDTA gera agregados plaquetários.
- Tubo para soro (tampa vermelha ou amarela) depois: para bioquímicos.
- Respeite o volume do tubo: cada tubo tem uma marca. Sangue de menos dilui a amostra no anticoagulante e pode reduzir hematócrito e contagem de hemácias; sangue de mais favorece coágulos. Tenha tubos pequenos à disposição para pacientes pequenos.
- Não fure a tampa de borracha sem sistema a vácuo: retire a tampa, aproxime a seringa da parede do tubo e deixe o sangue escorrer.
- Homogeneíze por inversão suave, nunca chacoalhando.
- Não use heparina na seringa para hemograma.
Os 3 erros que mais mudam o resultado
| Erro | Causas | O que altera |
|---|---|---|
| Hemólise | Coleta traumática, agulha fina, êmbolo puxado com força, excesso de álcool, homogeneização brusca, calor, gelo direto, demora para processar | Vários bioquímicos, hemoglobina e índices eritrocitários |
| Lipemia | Falta de jejum ou doença que cursa com lipemia | Hemoglobina, índices, bioquímicos e eletrólitos |
| Coágulos e agregados plaquetários | Coleta demorada, contenção ruim, múltiplas punções, EDTA tarde | Falsa trombocitopenia, às vezes intensa, e erros no eritrograma |
Se o laudo descreve agregados plaquetários, a contagem de plaquetas não é confiável: repita a coleta. Expliquei isso em detalhe no artigo sobre trombocitopenia em cães.
6. Conservação e envio
- Hemograma: o ideal é processar em até 4 horas, aceitável até 6 a 8 horas e, no máximo, 24 horas. Amostra velha altera índices eritrocitários e pode simular alterações tóxicas nos neutrófilos.
- Laboratório externo: faça um esfregaço na hora da coleta e envie junto.
- Gatos com suspeita de micoplasmose: faça a lâmina imediatamente, porque o micoplasma se desprende das hemácias com o tempo.
- Soro separado: pode ser refrigerado por até cerca de 72 horas; confirme com o laboratório para análises específicas.
- Proteja do calor e nunca coloque o tubo em contato direto com gelo. Prenda a tampa do tubo de EDTA com fita no transporte.
Perguntas frequentes
Cão precisa de jejum para exame de sangue?
Para hemograma, cerca de 4 horas de jejum costumam bastar. Para bioquímicos, o ideal é 8 a 12 horas, e para colesterol, triglicerídeos e glicemia, 12 horas. Filhotes são exceção e não devem ficar tanto tempo em jejum. A falta de jejum causa lipemia, que altera vários resultados.
Qual o melhor local para coleta de sangue em cães e gatos?
A veia jugular, pelo calibre e pela velocidade da coleta, o que reduz hemólise e formação de coágulos. A cefálica pode ser usada quando o comportamento do paciente ou a equipe disponível não permitem a jugular, mas tende a ser mais lenta. Em gatos, a safena medial é outra opção.
Qual tubo encher primeiro: EDTA ou soro?
Na coleta com seringa e agulha, sem sistema a vácuo, coloque primeiro no tubo com EDTA (tampa roxa) e depois no tubo para soro (tampa vermelha ou amarela). A coagulação começa rápido, e atrasar o EDTA aumenta agregados plaquetários e coágulos.
O que causa hemólise na amostra de sangue?
Coleta traumática, agulha muito fina, puxar o êmbolo com força, excesso de álcool no local da punção, homogeneização brusca do tubo, temperaturas extremas (calor ou contato direto com gelo) e demora para processar a amostra.
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No Método VDS, eu ensino coleta sanguínea, coleta e manejo de amostras, hemograma, bioquímicos e urinálise, além de mais de 35 doenças da rotina de cães e gatos, com lives de discussão de casos.